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  • Luciana Garbini De Nadal

EMDR aplicado em um trabalho de prevenção de neuroses

RESUMO

Percebendo que grande parte das queixas trazidas pelos pacientes tinham raízes na relação destes com seus cuidadores em etapas precoces do desenvolvimento, Reich investiu na prevenção de neuroses. Neste projeto denominado por ele de “Crianças do Futuro” profissionais da saúde intervinham com os pais para que estes tivessem mais consciência na lida com os filhos. O objetivo deste estudo é demonstrar a importância de um trabalho preventivo no desenvolvimento de um ser humano e como a terapia EMDR é eficaz neste processo, se integrando muito bem com a abordagem Reichiana.

Palavras-chave: Crianças do Futuro. EMDR. Prevenção de neuroses. Reich.


ABSTRACT

Realizing that most complaints brought by patients had their roots in their relationship with their carers in early stages of their development, Reich invested in neurosis prevention. In the project that he called ‘Children of the Future’ the healthcare professionals used to intervene with the parents so that they were more conscious of their dealings with their children. The objective of this study is to demonstrate the importance of preventive actions in the development of a human being and how effective EMDR therapy is in this process, if fully integrated with Reichian approach.

Key words: Children of the Future, EMDR. Neurosis prevention. Reich


Reich (1) observou as patologias não apenas na clínica particular, mas na sociedade como um todo. Ele percebeu que quando um impulso natural é reprimido, este se desvia de seu curso natural e se torna impulso secundário: ansiedade, perversões, destrutividade e outros sintomas. A forma distorcida com que a sociedade lida com as emoções é reproduzida na família criando memórias traumáticas.

Um estresse vivenciado em um período precoce do desenvolvimento – anterior à puberdade – deixa marcas no individuo quando não devidamente processado. Esse evento que resulta em carga emocional acumulada inconsciente é denominado de “estresse primário” (2). No decorrer da vida, algum acontecimento – estresse secundário – pode ativar essa memória precoce resultando em sintomas. Situações estressantes e não processadas criam bloqueios energéticos que se manifestam como repressão das emoções e consequentemente como tensões musculares. “A palavra emoção vem do latim ex-movere – movimento do interior para fora – um movimento neurovegetativo muscular expressando-se no comportamento do individuo” (3). Reich denominou esses bloqueios de “couraças” e dividiu o corpo em sete segmentos de acordo com a função, o tipo de emoção e a etapa do desenvolvimento.

A neurociência corrobora o que observamos na clínica ao ativar memórias pré-verbais: o sistema de comunicação emocional é essencialmente não verbal. A interação com a mãe ou outro cuidador é a maior fonte de estimulação para o desenvolvimento neuroquímico e neurobiológico, a partir do imaturo sistema nervoso com o qual nascemos. A maturação do córtex pré-frontal é essencialmente pós-natal. A função materna é um regulador externo dos sistemas nervoso e endócrino da criança e influencia indiretamente a expressão genética favorecendo ou interferindo nesta (4).

A memória implícita funciona desde o início da vida. O cérebro do bebê conclui semelhanças, diferenças e generalizações a partir das repetições de experiências. Essas repetições formam a base dos modelos mentais que permitem compreender a experiência presente e antecipar o futuro, sendo a essência da aprendizagem. “Foram geradas no passado, moldam nossa experiência presente e antecipam nosso futuro” (5). Através das experiências iniciais de vida, se desenvolvem generalizações em torno do esperável do cuidador que modelam a expressão emocional futura, gerando esquemas mentais de apego. A aprendizagem emocional depende de vias que não entram no neocórtex, assim as respostas emocionais podem produzir-se sem a participação dos mecanismos cerebrais corticais de processamento (5).

“Quando a memória implícita é posta em jogo, as redes neurais que se ativam envolvem circuitos no cérebro que são fundamentais na experiência de vida diária e no funcionamento cotidiano (expressão de condutas, emoções e imagens), mas que não necessitam procedimentos conscientes. Portanto, atuamos, sentimos e pensamos sem ter noção consciente da influência passada na nossa realidade atual” (5).

“O grau de estresse experimentado em diversos eventos traumáticos pode danificar a memória, impedindo que se produza o armazenamento e ingresso de informação à memória explícita, e portanto, bloqueia-se a capacidade de gerar recordações verbalizáveis” (5). Assim, a memória explícita tem seu funcionamento prejudicado, mas o funcionamento implícito continua operando normalmente. Por essa razão, certos estímulos sensoriais podem causar reações ao individuo relativas ao trauma, mesmo não havendo consciência – memória explícita – deste evento. A ativação de memórias está facilitada por chaves que serão ativadas pelo cérebro através do mesmo estado emocional em que se produziu a aprendizagem (5).

Se os traumas mais significativos ocorrem nos primeiros anos de vida, uma intervenção precoce orientando e conscientizando os pais evitará muitos problemas emocionais. Reich (2) criou o OIRC (Centro Orgonômico para a Pesquisa sobre a Infância) onde reuniu profissionais para estudar quais seriam as características de uma criança saudável – movimentos, emoções – e para intervir prevenindo as couraças. Para isso, havia um trabalho de aconselhamento aos pais quanto a questões emocionais, físicas e energéticas e liberação de bloqueios que fossem surgindo. Os profissionais supervisionavam o parto e os primeiros dias de vida do recém-nascido e acompanhavam a criança até seus 5 ou 6 anos de vida para garantir um desenvolvimento saudável.

De acordo com Maldonado (6), a maternidade e a paternidade são momentos cruciais do ciclo vital que oportunizam à mulher e ao homem atingirem novos níveis de integração. Este momento de transição existencial permite amadurecer e expandir a personalidade. Os comportamentos e ansiedades do filho reativam nos cuidadores as próprias vivências que eles tiveram no momento evolutivo em que a criança se encontra (7). A fim de não repetirem padrões patológicos com os filhos, projetando nestes seus conflitos infantis não superados, é essencial que os pais trabalhem seus conteúdos emocionais do passado em terapia.

A terapia EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) é uma abordagem muito eficaz na prevenção de neuroses, pois traz memórias à consciência, dessensibiliza e reprocessa conteúdos traumáticos. Essa abordagem se utiliza de estimulação bilateral dos hemisférios cerebrais, mobilizando o cérebro, relaxando-o ou liberando-o de ansiedade e estresses; além disso, auxilia na resolução de problemas. Conexões neurofisiológicas são bloqueadas nas situações traumáticas. O EMDR reconecta as diferentes partes do cérebro e o corpo dentro do todo do sistema (8).

O trauma causa uma interrupção de processamento adaptativo de informação normal. Este conteúdo não processado fica mantido ou congelado em redes de memória. O EMDR normaliza a atividade cerebral. A estimulação bilateral permite que a lembrança não processada saia do estado de congelamento e deixe de ser traumática, ou seja, que não cause mais sofrimento físico, nem emocional ao ser evocada. Esta abordagem também inclui o corpo, pois este é indissociável da mente, e atenta às crenças negativas criadas a partir do trauma (8).

A partir da queixa atual do paciente, investiga-se que crenças negativas, emoções, lembranças e desconfortos físicos estão associados e chega-se na memória mais antiga relacionada. Em um trabalho de prevenção de neuroses, parte-se de emoções e ansiedades relativas à nova etapa de vida que é tornar-se mãe ou pai: desde a decisão de ter um filho, até dificuldades que aparecem na lida com este e chega-se nas memórias de infância. Observa-se qual a parte criança – de que momento de vida – do paciente está interferindo no adulto que ele é hoje.

A clínica Reichiana é muito eficiente no processo de trazer à consciência memórias implícitas, pois atua direto no corpo. Utilizam-se os actings (9), que são intervenções corporais que reproduzem etapas do desenvolvimento, exercícios de respiração e toques em pontos e em músculos específicos, seguindo o mapeamento dos segmentos descritos por Reich. Memórias uterinas ou de parto, por exemplo, podem ser trabalhadas com toques no umbigo, permitindo ao paciente acessar sentimentos até então inconscientes e expressar a carga emocional. Após a ativação corporal, pode-se utilizar o EMDR para integrar e reprocessar aquele conteúdo, libertando o indivíduo de crenças negativas criadas a partir do trauma e o amadurecendo emocionalmente em relação à aprendizagem daquele período de vida. Assim, o paciente consegue mudar de atitude em relação ao filho.

O fato de não termos memória explícita do período inicial de vida nos impede de percebermos sua relevância, daí a importância de terapias que permitam o acesso a conteúdos pré-verbais. Um trabalho de prevenção de neuroses evita muitos problemas emocionais que seriam passados de geração em geração. Cada indivíduo que se liberta de seus padrões patológicos de funcionamento emocional contribui não só para o futuro das gerações de sua família, mas também para a melhoria da sociedade.


Referências

1. Reich WA. Revolução Sexual. 8th ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores; 1968.

2. Reich W. Children of the Future. On the prevention of sexual pathology. 1st ed. New York: Farrar, Straus Giroux; 1983.

3. Volpi JH, Volpi SM. Crescer é uma Aventura! Desenvolvimento emocional segundo a Psicologia Corporal. 2nd ed. Curitiba: Centro Reichiano; 2008. p.26.

4. Lescano R. Biologia dos processos mentais. In: Lescano R. (Org) Trauma e EMDR: Uma nova abordagem terapêutica. Brasília: Nova temática; 2007. p.95-108.

5. Pasale A. Sistemas de Memória. In: Lescano R. (Org) Trauma e EMDR: Uma nova abordagem terapêutica. Brasília: Nova temática; 2007. p.109-128.

6. Maldonado MT. Psicologia da gravidez. Rio de Janeiro: Jaguatirica; 2013.

7. Soifer R. Psicodinamismos da Família com Crianças. Terapia familiar com técnica de jogo. Petrópolis: Vozes; 1983.

8. Grand D. Cura emocional em velocidade máxima: o poder do EMDR – Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares. Brasília: EMDR Treinamento e Consultoria Ltda; 2013.

9. Navarro F. Metodologia da Vegetoterapia Caractero-Analítica: sistemática, semiótica, semiologia, semântica. São Paulo: Summus; 1996.



Artigo criado para a apresentação EMDR aplicado em um trabalho de prevenção de neuroses no V Congresso Brasileiro de EMDR.


AUTORA e APRESENTADORA

Luciana Garbini De Nadal / Porto Alegre / RS / Brasil

Psicóloga formada pela UFRGS (CRP 07/16819), Especialista em Psicologia Corporal – Centro Reichiano / PR, Terapeuta de EMDR, terapeuta de Brainspotting avançado, Formação em Orgonomia Aberta (Stolkiner). Massagens Bioenergéticas (Ralph Viana). Meditações Ativas.


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