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  • Luciana Garbini De Nadal

CANTAR É DISSOLVER BARREIRAS

RESUMO

Alexander Lowen, pai da Análise Bioenergética, considera a autoexpressão um dos elementos-chave em sua abordagem. Quanto maior a capacidade de um indivíduo de expressar sua ideias e sentimentos, mais prazer e satisfação ele sentirá. Os bloqueios energéticos fazem com que a expressão fique travada. O cantar é uma ação que envolve o corpo inteiro, mexe com as emoções e é capaz de desbloquear o fluxo de energia quando realizado com entrega. O objetivo deste artigo é trazer uma reflexão sobre o que acontece com a energia em nosso organismo ao cantarmos.


Palavras-chave: Autoexpressão. Cantar. Energia. Expansão. Voz.


A abordagem terapêutica chamada Análise Bioenergética, criada por Alexander Lowen, dá muita importância à autoexpressividade: esta é uma qualidade de todos os seres vivos, pois diz respeito às atividades livres, naturais e espontâneas do corpo. E não só as ações, como também outros aspectos são expressões do ser: o contorno do corpo, o sexo, a idade, os olhos, o cabelo etc. O modo como o indivíduo se expressa mostra um pouco de sua estrutura de caráter, sua individualidade (LOWEN, 1982). Sabemos que a voz de cada um é única: não há pessoas com a mesma voz, pois esta é resultado da expressão de todo o seu ser, como tratarei mais adiante neste artigo. Primeiramente trarei a compreensão de alguns autores sobre as qualidades das correntes energéticas que percorrem o organismo humano para, a partir disto e de minha experiência pessoal com o canto, desenvolver um entendimento sobre como a energia se movimenta no ato de cantar.

Lowen (1983) afirma que o caminho percorrido pela energia em nosso corpo irá determinar o tipo de sensação que teremos: quando o fluxo de sentimentos é ascendente em nosso organismo, sua qualidade é espiritual: há uma sensação de ascensão, excitação; quando o fluxo é descendente, a qualidade passa a ser carnal, sensual, pois a energia vai do ventre para a terra trazendo a sensação de enraizamento, relaxamento e alívio. Em outra obra, o autor (1985) faz mais uma distinção no caminho do fluxo de energia: a parte anterior do corpo é o lado sensorial, se relaciona com sentimentos de ternura, tem uma qualidade espiritual, celestial, é relacionado à função respiratória e à inspiração de ar, enquanto que a parte posterior do corpo é o lado motor, se relaciona com sentimentos de agressividade, tem aspectos terrestres, tem relação com o sistema digestivo, com a procura de alimentos, e sua orientação é materialística.

O instinto sexual percorre ambos os lados, tendo os componentes eróticos e agressivos, e sua direção é descendente, convergindo nos genitais. Já o instinto do ego é antitético ao instinto sexual, pois ambos os impulsos – anterior e posterior – correm para cima, convergindo nos olhos. Por isso que no auge do orgasmo o ego se extingue (LOWEN, 1977).

Todas as ações possuem um componente de cada um destes aspectos do indivíduo. A razão entre eles determinará a qualidade do movimento. O ideal é que a pessoa tenha uma flexibilidade a fim de reagir de forma proporcional ao que cada situação exige. A neurose faz com que a razão entre estes dois instintos se estabeleça em um limite estreito e ocorra uma fusão incompleta da energia dos dois caminhos, gerando ambivalência e comportamento irracional. Quando os impulsos dos dois caminhos se fundem ou superpõem-se, a ação torna-se uma expressão unitária, sendo impossível a um observador distingui-los (LOWEN, 1977).

Há dois pólos energéticos em nosso organismo em constante pulsação, conforme Lowen (1983): o superior ou terminal do corpo localizado na cabeça e o outro na parte inferior do corpo, nas extremidades inferiores. Este fluxo costuma ser equilibrado nas duas direções, mas há situações em que há predominância de um dos dois, como na raiva que ascende até a cabeça e a excitação sexual que desce para os genitais. O pólo superior tem a ver com princípio masculino, espiritualidade, céu, função de carga e ego. O pólo inferior se relaciona com princípio feminino, sensualidade, terra, função de descarga e corpo. Se há uma tensão muito grande no diafragma, este vira um anel de tensão separando os dois pólos e determina uma perda da percepção de unidade (LOWEN, 1983).

O diafragma tem uma importante função energética, conforme Calegari (2001), pois secciona o corpo em dois blocos: o bloco superior é o conjunto expressivo e tem relação com as emoções, enquanto que o bloco inferior tem por função a autorregulagem bioenergética e se relaciona com o prazer. Quando este músculo está encouraçado, as funções emocionais ficam separadas da função sexual. Orgasmo, riso intenso, choro convulsivo e vômito são expressões que costumam se utilizar dos dois blocos, podendo liberar o bloqueio diafragmático. Acredito que o canto também envolva ambos os blocos quando a expressão é relativamente livre de bloqueios.

De acordo com Stolkiner (2008), há uma corrente energética entre a boca e o diafragma. O movimento desta corrente vindo de fora para dentro do organismo caracteriza a função de incorporação: “ [...] é o processo pelo qual o mundo entra em nós ou nós entramos no mundo” (STOLKINER, 2008, p. 133). Por outro lado, quando a energia move-se do abdome e sobe para fora do organismo, não só pelo rosto e boca, mas também podendo se ampliar por todo o corpo, é a função expressiva da qual estamos falando. Ambas as funções são naturais do organismo.

O principal local no corpo relacionado à expressão é o pescoço: esta é a função central desta região. Este segmento é um ponto de estreitamento entre duas cavidades e funciona como local de resistência: há uma pressão de ar, e a resistência das cordas vocais fazem com que ocorra o som. “O pescoço está situado entre o processamento mental e o processamento da energia, que está relacionado com o funcionamento emocional” (STOLKINER, 2008, p. 160). Na função de expressão, o que existe de nossa identidade sobe pelo corpo a partir do abdome, toma forma na resistência do pescoço e na cavidade bucal, se manifestando no mundo.

Conforme Stolkiner (2008), há três fases no processo de emissão do som. A primeira é ativa e tem a ver com o volume ou intensidade do som proporcionado pela pressão do diafragma e do peito que vai para cima – temos nestes dois segmentos nossos centros de pulsação. A segunda ocorre na garganta: a resistência das cordas vocais dá a altura da voz – grave ou aguda. A terceira fase ocorre nos ressoadores e nas articulações da boca que dão o “colorido” do som: o chamado timbre, que torna nossa voz única.

De acordo com Lowen (1977), toda a música nos traz um sentimento de aspirar, pois a energia percorre um caminho do diafragma à cabeça; é um movimento ascendente na direção do outro, uma busca por contato: “É um aspirar de contatos” (LOWEN, 1977, p. 84). O mesmo sentimento move-se para baixo, em direção aos genitais, no ato sexual, mas com outra qualidade: a sensação de derreter-se e o desejo de ecoar-se. Quando uma pessoa está muito carregada ou excitada, sua tendência é ir para cima, levantar vôo; é uma sensação boa, mas que traz também um elemento de ansiedade com o perigo de cair, se não houver um bom contato com o solo, um bom enraizamento. É na parte inferior que está nossa natureza animal e onde residem as qualidades de ritmo e graça (LOWEN, 1985).

Lowen (1977) ainda coloca que as ações de andar, dançar e pular se relacionam com nossa interação com o solo, enquanto que o cantar e falar têm relação com o ar e o espaço. Porém em outra obra, o autor explica que a onda inspiratória começa fundo na pelve, subindo até a boca, enquanto que a onda expiratória inicia na boca e se direciona para baixo, alcançando a pélvis e fazendo esta mover-se suavemente para a frente (LOWEN, 1985). Podemos pensar, portanto, que no cantar não há só movimento para cima, mas também há um fluxo de energia descendente atingindo os genitais.

"Na música, o sentimento de aspirar é básico para a melodia. A música também tem um componente rítmico. Enquanto a melodia alcança vôo, como um pássaro, o ritmo está ‘com os pés no chão’ e encontra seu meio natural no movimento das pernas e pés. O ritmo é, por sua natureza, altamente pulsátil e, em função deste fato, está relacionado a todos os demais fenômenos de descarga energética". (LOWEN, 1977, p. 84).

Essa sensação de aspirar foi experienciada por Lowen (1977) ao ouvir a música de Chopin: “O sentimento de aspirar é tão forte que quase chega a ser ansiedade. Sente-se em sua música o fracasso do sentimento em não obter satisfação; é como se fosse um sentimento preso na garganta” (LOWEN, 1977, pg. 84). Isto me faz pensar que a música clássica traz mais essa sensação de contato com a espiritualidade com sua melodia bem emocional, enquanto que há músicas em que a qualidade da sensação se relaciona mais com a sensualidade, como as músicas orientais, em que observamos um ritmo bem marcado, uma pulsação, ou seja, trabalhando bem com a energia descendente.

O cantar, assim como todas as ações autoexpressivas, tem por elemento-chave o prazer (LOWEN, 1982). No sentimento de prazer, a energia vai para a periferia do corpo: é um movimento expansivo. Este fluxo de sentimentos começa no coração e se distribui para os locais de contato do corpo com o mundo: olhos, boca, mãos, pele, genitais e pés. Por outro lado, ameaças externas ou mesmo internas fazem o organismo se contrair em uma vivência de dor, retraimento e fechamento: a musculatura contém a excitação e, quando esta falha, surge a ansiedade. De acordo com a Bioenergética, a vida se move essencialmente em direção ao prazer; nunca à dor (Volpi & Volpi, 2003). Calegari (2001) refere que na expansão o centro do organismo se contrai e a periferia relaxa. Assim vemos no canto: empurramos o abdome para que a energia vá para a superfície do corpo, rumo ao contato.

Porém, quando a autoexpressão está a serviço apenas do ego, com o propósito de exibição, perde-se uma parte da espontaneidade. O prazer é proporcional à quantidade de espontaneidade, de entrega aos próprios sentimentos. Mas também é necessário que haja um certo grau de controle do ego, caso contrário, a espontaneidade vira caos e desordem. No caso do cantor, este deve poder ser espontâneo, mas tendo a base da técnica e consciência das suas ações ao se apresentar em público. Um equilíbrio entre controle egóico e espontaneidade permite a manifestação mais eficiente possível de um impulso ao mesmo tempo que transmite a vitalidade da pessoa (LOWEN, 1982).

Vemos a importância dos segmentos do pescoço e do diafragma como locais diretamente relacionados à expressão e que conectam mente e corpo e emoções e sensualidade, respectivamente. Porém, a experiência de cantar envolve todos os sete segmentos corporais definidos por Reich: desde uma boa postura do corpo inteiro para dar sustentação ao som – o enraizamento chamado de grounding pela Bioenergética; o apoio necessário da parte inferior do corpo para dar ritmo e chegar na afinação; a movimentação do diafragma; a respiração correta; a conexão com as emoções no peito; o relaxamento do pescoço e as vibrações das cordas vocais fazendo o som acontecer; a articulação e ressonância do som na caixa craniana; a percepção musical através dos órgãos de sentido e encéfalo e o contato estabelecido com o mundo externo, através da expressão dos sentimentos (NOLL; MORAES; JACQUES, 2000).

Noll, Moraes e Jacques (2000) afirmam que no cantar há uma liberação do fluxo energético. Isto pode ser observado em reações imediatas de bocejos, sono, arrotos, suspiros, espreguiçamentos, riso, vitalidade, mudanças de humor e de estado de ânimo. “Cantar é expandir-se na busca de si mesmo, do outro, da natureza, do universo, através de um verdadeiro contato de ressonância energética” (NOLL; MORAES; JACQUES, 2000, p. 97).

De acordo com Lowen (1990), apesar de o som não envolver o toque, ele é uma força física que atinge o corpo do outro, estabelecendo-se, assim, um contato amoroso. Observamos este fato ao observar um bebê se tranquilizar ao ouvir a voz da mãe. Amar é sentir-se ligado através desta sensação de proximidade e conexão primeiramente com nós mesmos e depois com o outro, afinal entregar-se ao amor é render-se a si mesmo, ao próprio desejo de amor, ao próprio coração.

Podemos compreender, diante do exposto, que no canto todo o corpo é utilizado, e quanto maior a entrega do cantor, mais esta ação será íntegra, com uma alta movimentação de energia no organismo. Esta intensidade pode chegar a descargas bioenergéticas, como é possível observar em alguns cantores. A energia toda vai para a superfície do corpo em direção ao contato, ressoando nos corpos e sentimentos das pessoas que estão ao redor.

Algumas músicas trazem uma qualidade mais espiritual, com sensação de ascensão de energia, enquanto que outras apresentam uma tonalidade mais sensual, de descarga energética para a terra. Porém, em minha opinião, todas as músicas mexem com ambas as qualidades energéticas, variando conforme as vivências do cantor ou do ouvinte: apesar das semelhanças de sensações, em cada organismo ela ressoará de forma diferente, única.

Pude observar, em minha experiência com coral, que há momentos em que o som de todas as vozes parece tornar-se único. Este é um fenômeno de campo energético, em que os coralistas entram na mesma sintonia. Vemos cantores capazes de tocar uma multidão com sua voz: o público se contagia com aquela vibração que toca em seus corações, aflora emoções, traz sensações de arrepio, de prazer, de descarga bioenergética. Cantar pode se transformar em um momento de entrega em que as energias das pessoas envolvidas se aproximam, se misturam, dissolvendo barreiras e limites e nos mostrando um pouco do que é a nossa realidade: de que somos todos ligados através do amor.



Referências


CALEGARI, D. Da Teoria do Corpo ao Coração – Uma visão do homem a partir da energia cósmica. São Paulo: Summus Editorial, 2001.

LOWEN, A. Amor, Sexo e seu Coração. 3ª ed. São Paulo: Summus Editorial, 1990.

LOWEN, A.; LOWEN. L. Exercícios de Bioenergética – O Caminho para uma saúde vibrante. 3ª ed.São Paulo: Ágora, 1985.

LOWEN, A. Bioenergética. 6ª ed.São Paulo: Summus Editorial, 1982.

LOWEN, A. O Corpo em Depressão – As bases biológicas da fé e da realidade. 7ª ed São Paulo: Summus Editorial, 1983.

LOWEN, A. O Corpo em Terapia – A abordagem bioenergética. São Paulo: Summus Editorial, 1977.

STOLKINER, J. Abrindo-se aos Mistérios do Corpo – Seminários de orgonomia. Porto Alegre: Alcance, 2008.

NOLL, M. B.; MORAES, M. P.; JACQUES, M. S. Cantar – Contato de Ressonância. In: integrantes da SWR/RS (Org.). Revista da Sociedade Wilhelm Reich/RS. Porto Alegre: Sociedade Wilhelm Reich/RS, vol. 4, n. 4, p. 88-97, 2000.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: A Análise Bioenergética. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.


Artigo apresentado como requisito parcial ao módulo III do Curso de Especialização em Psicologia Corporal, ministrado pelo Centro Reichiano / RS


AUTORA


Luciana Garbini De Nadal / Porto Alegre / RS / Brasil

Psicóloga formada pela UFRGS (CRP 07/16819), Especialista em Psicologia Corporal – Centro Reichiano / PR, Terapeuta de EMDR, terapeuta de Brainspotting avançado, Formação em Orgonomia Aberta (Stolkiner). Massagens Bioenergéticas (Ralph Viana). Meditações Ativas.

E-mail: lucianagarbinidenadal@gmail.com




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